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Os últimos meses têm sido estranhos. Me peguei questionando o que seria do meu mundo sem eu por perto. Não vou escrever que pensei em suicídio, mas pensei em morte mesmo. Em um sonho ou outro, sempre me via morrer aos 33 anos. Mas esse primeiro semestre de 2018, morando só em São Paulo, parece ter adiantado esse prazo de validade.

A experiência de morar só, até então, tem sido incrível, mas ~relacionamento à distância é maravilhoso e as redes sociais aproximam quem está distante~. Não, isso não acontece sempre e não ocorre comigo. Pelo contrário, entendi a tecnologia me deixar dependente das pessoas, de uma atenção que ninguém poderia me dar, de uma compreensão que, em palavras escritas, todos fingiram entender.

Sempre questiono quem a gente é offline e online. Acho ironia sermos/termos a melhor família ou os melhores amigos nas redes sociais e, pessoalmente, agirmos de maneira individualista e como estranhos com cada um. Senti isso após visitar, rapidamente, meus pais e irmãos no Recife em maio e receber amigos em meu apartamento em São Paulo.

Vivi momentos que me deixaram bem desnorteado e comecei a ter a sensação de ser rejeitado. No Facebook, no Instagram e no WhatsApp nenhuma interação. Zero interação com pessoas que dei suporte, segurei a mão em tantos momentos, que me acompanharam em tantos outros, mas que fizeram/fazem questão de me mostrar o quanto eu era/sou descartável.

seo redes sociais tecnologia comportamento ansiedadeComeçou a ser difícil ver as pessoas vivendo suas vidas maravilhosas nas redes sociais e eu sem nem conseguir sair da cama. “Desiste” ou “isso passa” era resposta clichê quando eu tentava gritar para alguém do outro lado da tela. Respirar ficou difícil, sair de casa ficou difícil. Me vi recusando convites para cobrir lançamentos de smartphones, almoços com executivos e outras tantas oportunidades porque não conseguia botar o pé para fora do meu apartamento.

Meu corpo ficava quente, o coração acelerado, ânsia de vômito, lágrimas, falta de ar. Meu conforto era viver de cerveja ou café. Era uma forma de relaxar e me apagar, de não pensar que eu era/sou inútil. Lembro de uma semana que devo ter almoçado três vezes só. O resto era álcool e devoção. Não conseguia dormir mais, muito menos produzir algum conteúdo para mim ou para alguém. Mas sempre que tentava pedir ajuda nas redes sociais, eu continuava só em São Paulo.

Essas plataformas, que tanto juntam pessoas, me separaram. Elas, aliadas à solidão, machucam muito mais porque causam inveja, causam desprezo e inúmeros sentimentos ruins, que até então nunca os reconheci em mim. É tenebroso criar essa dependência e que, ao tentar livrá-la, parece que arranca um pedaço de você. Dor por dor, decidi sair de todos os grupos do WhatsApp e deletei o aplicativo do Facebook no smartphone e tenho evitado a versão desktop. No Instagram, limitei meu tempo rolando o feed e passei a interagir mais com perfis de pessoas desconhecidas, mas com interesses próximos aos meus.

Ainda choro e às vezes não tenho forças para levantar, como hoje (02/07), em que praticamente passei o dia na cama, olhando para o teto e escutando músicas tristes na chance de eu colocar para fora toda a raiva e angústia que há dentro de mim. Não sei quando vou finalmente conseguir, mas nos últimos dias troquei meu tempo nas redes sociais por caminhadas no parque e em sair com amigos paulistas e pessoas desconhecidas. Tudo na tentativa de calar as vozes que as redes sociais nos obrigam a ouvir.