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Com qual frequência você recicla o lixo que produz? Ou melhor, você sabe como reciclar o lixo que produz? Em 2017, o Brasil produziu 78,4 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2017, estudo organizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) e divulgado em setembro do ano passado.

Isso significa que o País produziu 1kg de lixo por habitante a cada dia e, se fosse um produto de exportação, venderia mais do que café e açúcar. Já um relatório do World Wildlife Fund (WWF), divulgado em março, apontou o Brasil como o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo. São 11,3 toneladas por ano e somente 1,28% desse total é reciclado.

Com a missão de mudar este cenário, a startup Cataki quer criar um ecossistema para conectar pessoas, catadores de materiais recicláveis, setor público e privado para fomentar a reciclagem correta de resíduos sólidos. Para isso, o primeiro passo foi desenvolver o aplicativo de mesmo nome (disponível para iOS e Android) em que usuários podem entrar em contato com os catadores mais próximos para fazer a coleta e reciclagem do lixo produzido.

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App Cataki conecta usuários a catadores de resíduos. Foto: Divulgação

O aplicativo Cataki foi criado em 2017 e o vai representar o Brasil na final global do Chivas Venture 2019, competição que premiará com US$ 1 milhão negócios de impacto social. Para votar na startup, basta clicar no site do Chivas. As votações ocorrem até 30 de abril e o projeto vencedor será divulgado até a primeira semana de maio.

O Tecnosense conversou com Mundano, ativista, grafiteiro e fundador do aplicativo Cataki. Ele falou sobre o impacto social da plataforma, estratégias de expansão, as dificuldades do setor de reciclagem e a marca que a startup quer deixar no Brasil. Confira:

Tecnosense: Como surgiu a ideia de criar um aplicativo como o Cataki?
Mundano:
A ideia de criar o Cataki surgiu há quatro anos a partir de uma demanda orgânica de pessoas querendo reciclar seus lixos. Temos um trabalho com nossa ONG, a Pimp My Carroça, que virou referência de reciclagem com catadores. Para se ter uma ideia, 83% da população não tem acesso a coleta seletiva e 90% do que é reciclado é coletado por catadores. Conforme a ONG foi crescendo, a demanda também cresceu e vimos uma necessidade de reciclar cada vez mais esses resíduos e aumentar a renda dos catadores. E deu certo. Lançamos o Cataki e, em novembro do ano passado, chegamos a ter 30 mil downloads em um único dia após uma usuária no Twitter fazer um passo a passo de como usar o aplicativo.

TN: Quais foram os desafios no desenvolvimento do Cataki?
Mundano:
Um dos desafios é que nós [Pimp My Carroça] não somos do mundo da tecnologia. Um aplicativo é caro para ser desenvolvido. Por sorte, temos mais de dois mil voluntários na ONG e procuramos pessoas que pudessem ajudar na primeira versão do Cataki. O MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) enviou uma estudante para nos ajudar nesta missão. Também recebemos um capital inicial da Humanitas e uma doação de bitcoins. Com isso conseguimos criar uma versão mais robusta do aplicativo. Hoje são mais de 1 mil catadores cadastrados em 300 municípios de todo o Brasil.

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App foi criado após ONG perceber grande demanda por reciclagem. Foto: Divulgação

TN: O que é possível fazer no aplicativo?
Mundano:
O Cataki conecta pessoas que querem reciclar com catadores que sobrevivem da reciclagem. O aplicativo mostra o profissional mais próximo para fazer a retirada do resíduo e o próprio usuário negocia com ele o pagamento do serviço. É possível encontrar ainda cooperativas, PEVs (ponto de entrega voluntária), ferros-velhos e ecopontos para que todo o processo de descarte e reciclagem dos materiais seja feito da maneira mais adequada. O aplicativo é gratuito e o usuário paga apenas o negócio com os catadores. Também não cobramos taxa nessas operações. Não faria sentido cobrar dos catadores quando a ideia é gerar maior renda para eles. Para isso mantemos um modelo de negócio em que recebemos investimentos das empresas para melhorar a plataforma.

TN: Como é feito o processo de cadastro desses profissionais?
Mundano:
A única coisa que pedimos é que os catadores tenham um telefone celular. Eles fazem o cadastro pelo próprio aplicativo e temos uma equipe para validar as informações e inseri-los no sistema. A validação é manual como forma de aproximar os catadores ao projeto. É uma oportunidade para levar dicas e dar as boas-vindas desses profissionais à comunidade. Além disso, temos também grupos de WhatsApp divididos por região para sempre mantermos todos atualizados e unidos.

TN: O que podemos esperar nas próximas atualizações do Cataki?
Mundano:
O Cataki tem mostrado um crescimento estável, 10% ao mês em todos os indicadores. Temos a proposta de implementar um processo de gamificação no aplicativo e, assim, gerar dados para que possamos ter insights de como melhorar o setor de coleta e reciclagem e também a renda dos catadores inscritos na plataforma. Queremos também fazer o rastreamento de todo o processo do material – da coleta do lixo pelo catador até o momento em que chega na recicladora. Nossa meta é atingir um milhão de pessoas – entre catadores, pessoas, poder público e empresas – para criar um ecossistema em que iremos economizar recursos naturais e energias. Ah, e fazer uma versão em espanhol do aplicativo e lançá-lo na Colômbia.

TN: Por que Colômbia?
Mundano:
A Colômbia tem um movimento organizado de catadores e encontramos similaridades com nosso projeto aqui no Brasil. Temos uma base de voluntários e artistas engajados naquele país, tanto que já fizemos algumas articulações e a prefeitura de Cali está mobilizando com a gente para o desenvolvimento de uma versão em espanhol do Cataki.

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Ideia é expandir app no Brasil e também na Colômbia. Foto: Divulgação

TN: E o Brasil? Temos um movimento organizado?
Mundano:
O sistema de reciclagem no Brasil é muito ineficiente. Dos cinco mil municípios, apenas 20% têm programa de reciclagem. Mas isso não quer dizer que essa iniciativa funciona. Temos o Plano Nacional de Resíduos Sólidos e leis que, entre a teoria e prática, não funcionam bem. Por exemplo, vemos ainda muitos lixões em funcionamento. Com a logística reversa – que é fazer com que os resíduos sólidos sejam coletados, reciclados e reutilizados –, as empresas não conseguem cumprir seu papel sustentável. Por sinal, o que vemos é a banalização da palavra sustentabilidade. As empresas dizem que gastam milhões para serem sustentáveis, mas são mesmo?

TN: Empresas têm se aproximado do Cataki?
Mundano:
Contamos nos dedos as empresas que querem ser parceiras do Cataki.

TN: Com menos de dois anos, o Cataki chamou atenção e recebeu vários prêmios, assim como está na final do Chivas Venture. Qual aprendizado você tira disso?
Mundano:
Aprendemos bastante nesses quase dois anos de startup. Quando fizemos o lançamento do aplicativo em São Paulo e no Recife, não tivemos tanta adesão porque focamos no usuário final e não conversamos com os catadores, que são nosso público-alvo. Mas aprendemos a lição e voltamos nosso olhar para eles. Tanto que já somamos 100 mil downloads, 1.400 catadores e pontos cadastrados e mais de mil ligações para validação do profissional por mês. Tudo isso de forma orgânica. Com o Chivas, queremos ir além. Queremos investir na melhoria do aplicativo, em campanhas e lançá-lo em outras cidades. Não descartamos em desenvolver também carroças elétricas para os catadores.

TN: Qual marca a Cataki quer deixar no Brasil e no mundo?
Mundano:
Queremos, em cinco anos, conectar um milhão de pessoas que vão reciclar seus lixos. Vamos impactar positivamente na renda de milhares de catadores e permitir que centenas de usuários tenham consciência da importância da reciclagem. Esses profissionais sempre serão essenciais e eles não podem ser substituídos por máquinas. Com isso, iremos também gerar maior valor na preservação de recursos naturais, além de mitigar as mudanças climáticas. E quando começarmos a mensurar os dados, seremos capazes de gerar um maior impacto para a sociedade. É essa marca que a Cataki quer deixar.